PERTENCIMENTO NOSSA SEXUALIDADE NAO NOS DEFINE.
Todo mundo já quis ser outra pessoa, se livrar das dores de ser quem se é, criar uma versão de si mesmo… e esse desejo assombra, especialmente, os pensamentos dos garotos gays. Há uma dor silenciosa que nos atravessa: a de querer ser aceito sem precisar deixar de ser quem somos. Desde cedo, aprendemos a observar os outros, tentando entender o que falta em nós para sermos aceitos. Passamos a vida criando personagens, é uma questão de sobrevivência. Uma mistura de medo de ser o alvo e o desejo de, por um instante, ser o padrão. Nesse esforço de parecer forte, acabamos trilhando caminhos solitários em busca de uma via que nos permita seguir sendo tudo o que podemos ser.
Boots, série disponível na Netflix, traduz esse sentimento universal. A trama acompanha Cameron, um adolescente gay que se alista na marinha em busca de mudar de vida. Cansado de sofrer bullying e de ter sua masculinidade reduzida, ele tenta se reinventar. O alistamento com seu melhor amigo hétero parece uma boa escolha, mas ele também tinha seus próprios motivos para estar ali. É aí que a série ganha profundidade: o que deveria ser apenas um treinamento militar se torna um mergulho existencial, um campo de batalha interno tão intenso quanto o externo.
A série constrói camadas simbólicas num ambiente rígido, perfeito para valorizar a performance de masculinidade e força que disfarça fragilidade, uma engrenagem que fabrica “homens duros”, mas que, ironicamente, acaba revelando laços genuínos entre eles. O verdadeiro pertencimento que todos buscam. Cameron não está ali porque quer deixar de ser gay; ele quer deixar de ser o garoto que sofre apenas por ser gay. Ele precisa pertencer, mas também precisa existir. O ponto alto da série são os diálogos dele com seu alter ego, sua versão bem resolvida, livre, que sonha em sair do armário.
No fim, a mensagem que Boots deixa é que estamos o tempo todo fazendo escolhas, e precisamos ter um propósito que justifique cada uma delas. Porque, no fundo, estamos apenas tentando encontrar o melhor caminho para sermos quem merecemos ser. Queremos olhar no espelho e nos orgulhar de quem enxergamos, sem máscaras, sem performance, apenas verdade. Felizes e completos.